
A guerra jurídica aberta pela libertação ou não do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no domingo gerou uma onda em cima da qual o Partido dos Trabalhadores agora trata de surfar. Em meio a um cenário eleitoral ainda incerto em que alianças partidárias começam a ser costuradas quase sempre com a condicionante "sem Lula", os holofotes se voltaram mais uma vez para o ex-presidente, que monopolizou o noticiário. Nas redes sociais, as menções a Lula foram campeãs absolutas entre os pré-candidatos a presidente, segundo a análise da consultoria Atlas Político. Para o PT foi um fôlego em uma hora necessária. O partido insiste que vai lançar o ex-presidente ao Planalto, apesar da provável impugnação de sua candidatura pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) por causa da lei da Ficha Limpa. A disputa legal serve para tentar manter coesa uma militância com líder ausente e minimizar as vozes que pedem, até mesmo no partido, que um plano B para Lula seja escolhido já. Nesta segunda-feira, durante entrevista na sede da legenda em São Paulo, a presidenta do PT, Gleisi Hoffmann, voltou a dizer que essa possibilidade nem sequer está em discussão e prometeu que a candidatura do ex-presidente será registrada no dia 15 de agosto em meio a um grande ato. "Não vamos arredar o pé", garantiu.Todo o lance do fim de semana teve direção político-jurídica, e não o protagonismo dos advogados titulares da defesa do petista. O pedido de habeas corpus assinado pelos deputados federais petistas Paulo Pimenta, Paulo Teixeira e Wadih Damous não resultou na libertação de Lula, mas acabou expondo o juiz da Operação Lava Jato, Sérgio Moro, e integrantes do próprio Tribunal Regional Federal 4ª região (TRF-4), que se desdobraram — e angariaram críticas — por terem extrapolado o papel que lhes cabia para impedir que o ex-presidente fosse solto, mesmo que por algumas horas.
A jogada do trio petista foi aproveitar que o desembargador Rogerio Favreto, filiado até 2010 ao PT, estava de plantão no TRF-4 para conseguir um alvará de soltura nas primeiras horas de domingo. Moro, juiz de primeira instância que condenou o ex-presidente no caso triplex, se envolveu no caso emitindo documento para questionar a competência de Favreto. Mesmo estando de férias em Portugal, Moro articulou com a Polícia Federal que Lula continuasse preso até que o relator do caso na segunda instância, o magistrado João Pedro Gebran Neto, que tampouco trabalhava naquele dia, se manifestasse para impedir sua soltura. O desfecho veio das mãos do presidente do tribunal, o desembargador Carlos Eduardo Thompson Flores, que agiu para manter o petista preso. Toda essa sequência de fatos, que despertaram um país ainda na ressaca da eliminação da seleção brasileira na Copa do Mundo da Rússia, foi usada para reforçar o argumento do PT de que o ex-presidente vem sendo vítima de uma perseguição por parte de setores do Judiciário que não medem esforços para mantê-lo longe da disputa eleitoral.
Na ultima segunda, a aposta no discurso apareceu redobrada — ignorando, obviamente, que não apenas Moro, mas também o desembargador Favreto, estão na berlinda dos juristas. "Consideramos absolutamente grave o que aconteceu ontem. Estamos num aprofundamento da instabilidade institucional do país, um rompimento da ordem democrática, quando a primeira instância do judiciário não aceita uma decisão judicial. Quando a Polícia Federal, um órgão do Executivo, não executa uma ordem judicial. Isso é um ataque ao devido processo legal. E isso é dirigido ao presidente Lula, que é a grande vítima da situação", disse Gleisi Hoffmann. "Lula esteve praticamente na porta da Polícia Federal para sair. Havia um comboio de carros para retirá-lo de lá. Infelizmente um conluio da Polícia Federal com o juiz Sérgio Moro e dois desembargadores do TRF-4 impediram ele de sair", acrescentou. A senadora do Paraná também assegurou que os próximos dias servirão para reforçar o abaixo-assinado pela liberação do ex-presidente — "mostrou-se que é viável essa liberdade", disse ela — e para realizar atos, inicialmente marcados para os dias 13 de julho e 10 e 15 de agosto, para mobilizar a militância e lançar medidas emergenciais a serem adotadas por um eventual Governo petista.

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